Cidadão português que no século XIX emigra para o Brasil, conseguindo aí fortuna, e que regressa à sua cidade natal. de volta a Portugal os "brasileiros" construíram residências, compraram quintas, criaram as primeiras indústrias, contribuíram para a construção de obras de arte e participaram na vida pública e municipal, dinamizando a vida económica, social e cultural.
O emigrante do Brasil é a personagem central do período que vai desde 1850 até à década de vinte do século passado, criando na arquitectura local uma homogeneidade e tendo como suporte económico os capitais ali amealhados.
O "brasileiro" é, de resto, objecto de riso e da crítica sarcástica dos nossos romancistas da época, conforme se pode comprovar no seguinte excerto:
<< Há longos anos o brasileiro (não o brasileiro brasílico, nascido no Brasil - mas o português que emigrou para o Brasil e que voltou rico do Brasil) é entre nós o tipo de caricatura mais francamente popular [...] grosso, trigueiro, com tons de chocolate, pança ricaça, joanetes nos pés, colete e grilhão de oiro, chapéu sobre a nuca, guarda-sol verde, vozinha adocicada, olho desconfiado, e um vício secreto. É o brasileiro: [...], o senhor de todos os prédios grotescamente sarapintados [...] Tudo o que se respeita no homem é escarnecido aqui no brasileiro. [...] De facto, o pobre brasileiro, o rico Torna-viagem, é hoje, para nós, o grande fornecedor do nosso riso. >>
Queirós, Eça de, Uma campanha alegre, vol. 2, Porto, Lello, 1978, pp.87-89.
A casa, que hoje desaparece subjugada à especulação imobiliária urbana, representava ontem a afirmação pessoal do proprietário "brasileiro".
Daí as suas dimensões, a multiplicidade de materiais e cores utilizadas, a imponência do jardim "tropical" e apresentando sempre uma solução arquitectónica vertical de amplas fachadas e ás vezes com um piso suplementar. Em segundo lugar ela representava a nova situação do proprietário, junto da comunidade de origem - bem patente na estatuária que remata a casa, nos monogramas desenhados nos fechos dos portões, nos tectos dos átrios de entrada ou nos azulejos centrais da fachada.
Citando Jaime Salazar Braga (in A casa do "brasileiro" e a paisagem rural do século XIX, Lisboa, 1986, p.64-65), << as inovações arquitectónicas e decorativas da casa do "brasileiro" representam, na maior parte dos casos, uma reprodução "desfocada" de soluções formais de uma arquitectura "elegante" adoptada na construção residencial brasileira a partir de meados do século XIX [...] >>
De facto, o "brasileiro" funcionou como difusor de cultura, numa época em que a ostentação dominava. Essa mesma ostentação leva-o a repetir tudo aquilo que aprendeu num país de relações de cultura que iam da Europa do norte à Europa do Sul, da África à Índia e ao Japão, misturando desta forma valores estéticos e formais.
Do ponto de vista arquitectónico, o Palacete Rocha Vellozo identifica-se com um dos tipos de casa de "brasileiro" existente em Portugal, casas estas que são verdadeiros palácios, afirmando-se como espaços de prestígio, pelas dimensões e concepção arquitectónica:
- Casa de rés-do-chão e andar, de linhas horizontais, com telhados de quatro águas, com paredes grossas de pedra e esquinas, soleiras e ombreiras de cantaria. As fachadas são amplas, compostas de rés-do-chão e andar nobre, com numerosas portas e janelas, apresentando um mezanino ou piso suplementar. Os átrios interiores de pedra lavrada, de onde parte a escada de acesso ao andar que se desdobra em dois lanços, iluminada por clarabóia.
Podendo-se considerar normalmente mais dois tipos de casa de "brasileiro":
- Casas onde especialmente ressalta o brilho e pompa das janelas, sacadas, portões, átrios de pedra lavrada com escada de acesso às águas-furtadas, iluminados por clarabóia. O rés-do-chão era destinado à armazenagem de produtos agrícolas de um proprietário agrícola com residência na urbe.
- Casas estreitas, que serviam simultaneamente de residência e estabelecimento comercial. No rés-do-chão funcionava o espaço comercial e no segundo piso a habitação, por vezes completada com um terceiro. Possuía duas portas: um, de residência, outra, de loja, com comunicação interior.
No entanto, em quase todos estes edifícios sobressaem as guias verticais a toda a altura, em cantaria, fachadas rebocadas e caiadas ou cobertas de azulejos. As varandas estreitas, quase sempre a toda a largura do prédio, possuem guardas de ferro forjado ou fundido ricamente ornamentadas. Os beirais de faiança, átrios de azulejo, escadarias de madeiras preciosas, os tectos de fino estuque, as portas de belas almofadas entalhadas e pintadas a branco e ouro, as vidraças com bandeiras de desenhos, lustres de cristal, delicados móveis e porcelanas completam um gosto que se afirmou entre 1860 e 1930. Os portões de ferro mostram sobre as ombreiras grandes vasos ou leões e os jardins são limitados por gradeamento de ferro, onde existe sempre a palmeira misturada com árvores de fruto.
<< Veio edificar uma casa no sítio em que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo com três andares e varandas, jardins com estátuas de louça e alegretes pintados de verde e amarelo, o qual tinha mais fama que os jardins suspensos da Babilónia >>
Dinis, Júlio, Morgadinha dos Canaviais, Porto, Liv. Civilização Editora, 1964, p.137 .
<< [...] mandaria edificar um palacete de azulejo côr de gema de ovo, com terraços no tecto para quatro estátuas simbólicas das estações do ano, e dous cães de bronze sobre as ombreiras do portão de ferro com armas fundidas, de saliências arrogantes, entre os dois colossos de dentaduras anavalhadas, minazes, como todos os bichos de heráldica. >>
Castelo Branco, Camilo, Eusébio Macário, 7ª ed., Porto, Liv. Chardron, s/d, p.50.
Significados de alguns termos utilizados:
Água furtada - Sótão
Alçado - projecção geométrica desenhada num plano perpendicular ao horizonte.
Andar nobre - piso mais importante dum edifício
Átrio - espaço imediatamente a seguir à fachada principal
Cantaria - arte de lavrar as pedras para a construção
Clarabóia - abertura envidraçada no telhado dum edifício para deixar passar a luz para o seu interior
Estuque - introduzido em Portugal pelos Romanos, só voltou a ser utilizado no séc. XVI ; espécie de argamassa feita com gesso adequado para reboco de paredes, ornamentos em relevo, bem como acabamentos quer lisos quer com textura.
Fachada - face ou alçado da frente dum edifício
Mezanino - sobreloja ; piso baixo entre dois mais altos, geralmente entre o rés-do-chão e o primeiro piso.
Ombreiras - elemento lateral que sustenta a verga duma porta ou janela
Soleira - pedra que forma o degrau junto de uma porta em que assentam as ombreiras.
Verga - parte superior de um vão de janela ou porta.